O site Around The Rings é um dos mais respeitados do mundo quando o assunto é Olimpíadas, tanto a de verão como a de inverno. Trata-se de um portal norte-americano especializado na análise de candidaturas e realização dos Jogos, de acordo com critérios matemáticos criados pela sua equipe e que dá notas de 1 a 10 para onze quesitos distintos, como acomodação, segurança, finanças, marketing, apoio governamental, entre outros. Desde 1992, o Around the Rings faz o acompanhamento dos negócios que envolvem as Olimpíadas.
Durante todo o processo pela disputa para sediar os Jogos de 2016, o Rio de Janeiro só passou a liderar esse ranking há poucos dias da escolha final. E, assim como já havia ocorrido com Pequim, o Around the Rings acertou de novo. Em entrevista exclusiva para o blog Jogo de Negócios, o editor e fundador do site Ed Hula, que continua na Dinamarca e deu a sua opinião sobre a escolha, afimou que as Olimpíadas podem mudar uma geração toda e falou sobre a importância de se criar uma política esportiva no país.

O que foi fundamental para a vitória do Rio de Janeiro?
Três fatores foram fundamentais. O primeiro, sem dúvida nenhuma, o fato de ser a primeira vez que a América do Sul vai receber as Olimpíadas. Esse ineditismo fez com que essa escolha ganhasse muita força na reta final. Por isso entrou para a história e causou toda a emoção que vimos. O Rio de Janeiro é uma cidade linda, conhecida no mundo todo, simpática, divertida e finalmente mostrou que pode ser capaz de realizar os Jogos. Ela tem características bem diferentes de Tóquio, Madrid e Chicago e, nesse caso, isso foi positivo. O segundo fator foi o entusiasmo do Comitê Organizador brasileiro. Ao contrário das outras candidaturas, todos os responsáveis da equipe sempre foram muito amigáveis, demonstraram energia e vontade de vencer. Acredito que o Rio de Janeiro aprendeu muito com as derrotas anteriores e, por isso, podemos dizer que realizou um trabalho de longo prazo. Por fim, o apoio governamental demonstrado também foi importante. O entusiasmo e a emoção do presidente Lula, o discurso do governador Sergio Cabral e também do prefeito Eduardo Paes, que teve um inglês melhor até do que o prefeito de Chicago. Esse suporte foi fundamental para demonstrar que os Jogos teriam as garantias necessárias do governo.
No Brasil muitas pessoas estão receosas sobre como o dinheiro público será investido, já que os exemplos deixados após os Jogos Panamericanos são terríveis (superfaturamento, instalações abandonadas, etc), apesar do relativo sucesso na parte esportiva. Como um evento como esse pode ajudar uma cidade ou um país?
A organização do Pan foi muito bem. É verdade que Vila Olímpica criada para o Pan está abandonada?
Sim, também não foram entregues outras obras públicas prometidas e o dinheiro gasto ultrapassou em dez vezes o valor inicial proposto.
(silêncio) Isso vai depender de quanto e como o governo e o comitê organizador vai gastar o orçamento, o que será feito, quais os setores que serão estimulados, as ofertas. É fato que o Rio será completamente transformado com as mudanças que serão realizadas para os Jogos, em todas as cidades o impacto é muito grande. Ela pode, se bem planejada e com responsabilidade, ajudar a diminuir a pobreza, gerar empregos para as novas gerações, reconstruir áreas. Mas tem uma coisa que pouco depende do dinheiro e é um dos melhores legados que as Olimpíadas podem fazer: mudar as pessoas. Ela tem o poder de transformar a população, trazer esperança para toda uma geração, é um estímulo para fazer mudanças necessárias e ficar com um sentimento de dever cumprido por ter feito uma cidade melhor, um país melhor. E nesse caso o Rio será privilegiado, pois esse sentimento já existirá para a Copa do Mundo de 2014 e não acabará no dia da grande final do futebol. As pessoas vão continuar trabalhando porque dois anos depois terão outro grande evento. É uma oportunidade única.
Quais os exemplos positivos e negativos até agora?
Barcelona (Espanha) é sempre um exemplo. Em Sidney, Austrália, também foi realizado um bom trabalho, onde todo o Parque Olímpico é muito utilizado até hoje e é mais do que uma arena esportiva, tem eventos de artes e outras áreas. Em Pequim (China) todas as instalações viraram pontos turísticos e são visitados por milhares de pessoas todos os dias. Além disso, foi criada uma agência para cuidar dos legados olímpicos, como as arenas, que são muito utilizadas pelas universidades, por exemplo. O mau exemplo fica com Atenas (Grécia) , onde foi gasto muito dinheiro e o que foi feito ninguém usa.
A falta de uma política esportiva também preocupa?
Para que os Jogos tenham sucesso, as equipes locais precisam ter um bom desempenho nas competições, a população precisa estar empolgada com a parte esportiva também. O presidente do COB, Carlos Nuzman, vai precisar se preocupar, e muito, com isso. Precisa ser feito um trabalho de treinamento. Não adianta nada pensar só no futebol. Existem diversas modalidades, do handebol ao tênis de mesa, onde as equipes locais precisam fazer um bom papel. Caso contrário as disputas ficarão esvaziadas, o interesse não existirá por parte das pessoas, da mídia, o que é muito ruim para o sucesso dos Jogos.
Receber a Copa do Mundo dois anos antes ajuda? De que forma?
O Rio vai precisar mudar muita coisa para a Copa de 2014 que posteriormente será aproveitada para as Olimpíadas, principalmente na questão de infraestutura, como aeroporto, transporte e até estádios, já que o Maracanã será o local da final da Copa e depois da abertura dos Jogos. A Fifa também tem exigências rigorosas. Além disso, essa experiência será muito positiva, um excelente exercício para que se corrija possíveis erros.
foto: Ed Hula com Tony Blair, entrevistando o então primeiro-ministro britânico sobre os Jogos Olímpicos de 2012 (Reprodução do site)